• Paula Costa, Artista Plástica

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CARRILHO, Ulisses.
2017. In: Paula Costa / Transborda Exhibition

Curador / Curator Escola de Artes Visuais do Parque Lage

Pra não dizer que não falei das flores

 

Muito embora na entrevista que fizemos para esta mostra Paula Costa tenha afirmado e reiterado que lhe interessava a ideia de finitude, arrisco iluminar a via inversa e seguir o caminho contrário. Não faz justiça afirmar que ela trabalha com a ideia de um arrastar do tempo, sequer se propõe a esgarçá-lo. Em sua fala, apresenta uma mirada para uma vida outra, experimentaria o objeto chamado de obra de arte uma condição especial. Por ora falemos de um esforço de imortalidade.

 

Recordo-me ainda de como narrou uma rosa colombiana vermelha ser tomada por uma cor muito mais escura, entre o bordô e o marrom, após o furo da agulha e o correr da linha: a pétala da flor é ora pele, ora carne no discurso de Paula. Não se tratam de flores secas: o anseio da bordadeira, onde reside o desejo, é encharcado por outras tintas, não lhe interessa render mais dias de vida. Mira na possibilidade das flores e folhas, cuja ação do tempo torna-se evidente, tornarem-se coisas outras.

 

O gesto mais singular, sobre o qual devemos orientar nossas atenções, está na escolha de bordar o material orgânico. O tecer sobrepõe-se ao escrever – as flores deformam-se ao secar e, por certas vezes, as palavras tornam-se escrituras ilegíveis àqueles que tentam decodificá-las por meio da razão. Em meados do século XIX, pareceu bizarro àqueles que encaravam o ato de bordar roupas que uma máquina pudesse fazer as vezes de dedos engenhosos imbricando linhas agulhas e panos num lacear compulsivo e maquinário. Incrédulos, estavam certos de que a tecnologia do coser guardava em si o privilégio da mão. Mesmo com os dedos, costurar sobre a superfície que não emprestará rigidez, depois de cosida, mais força e durabilidade à superfície de uma malha, é um ato da ordem da improdutividade.  Não trata-se de algo que constrói, a priori. Aproximam-se estas investigações, botânicas e plásticas, de joguetes comuns na infância, que guardam perversões adultas: como um bem me quer, mal me quer. Ou talvez pudéssemos pensar em narrativas mais impregnadas de mitos, como o desfazer subsequente ao tecer de Penélope.

 

Paula Costa não empurra o fim das coisas para depois pois o gesto ousa não deixar o fim chegar. Interpela uma vida e, no exercício que se dá na escala meticulosa da superfície vegetal, forma um caderno botânico de páginas verdes e maduras. O tempo das coisas prossegue seu curso numa vida outra, que não chega a encarar vidas com fim – quiçá oferece um futuro em meio a caixas de acrílico, como o fotógrafo que empresta a promessa de eternidade a um instante.  

 

Como uma salva vidas que esgueira-se à beira da praia com o olhar fixo no horizonte, talvez possamos falar em um salvamento. Às flores e plantas ornamentais murchas e pálidas é reservado o fundo de latas de lixo e a falta de apreço. O casal de apaixonados não recorre mais a ela como signo de seu amor e nem são elas os veículos de boas vindas, bons votos, felizes anos ou uma congratulação outra de natureza qualquer.  

 

Ulisses Carrilho

primeiros dias da primavera, 2017

Not to say I didn’t talk about the flowers

*title of the song that became a hymn of resistance against the military dictatorship established in Brazil in the 60 's

 

Although, when interviewed for Paula Costa’s art exhibition, I’ve stated and reaffirmed that she was interested in the idea of “finity”, I venture to light the opposite way and go through it. It’s not fair to assume that she works with the idea of time dragging, she does not even try to rip it off. Paula provides a sighting to another life where the object called art work would experience a special condition. For now, let’s talk about this effort of immortality.

 

I still remember how she told a red Colombian rose to be taken by a much darker color, between the burgundy and the brown,  after the needle hole and passing the thread, the petal of the flower is now skin, now flesh in Paula's speech. It’s not about dry flowers: the embroiderer’s longing, where lives the desire, is floaded by other inks, it’s not interesting anymore yielding more days of life. It aims the possibility of flowers and leaves, which reveals the action of time, so they become other things.

 

 

The most singular gesture, on which we should spot the lights, is revealed in the choice of embroidering organic material. Weaving overlaps writing – the flowers deform as they dry and, sometimes, the words become illegible writings to those that try to decode them using reason. In the mid-nineteenth century, it sounded weird to those who were used to embroider that a machine could work the same way skilled fingers could, by imbricating needle and cloth lines in a compulsive and machinery lacing. Unbelievers were sure that the technology of sewing held the privilege of the hand. Even with the fingers, sewing on a surface that does not offer rigidity, after sewed, more strenght and and durability to the mesh surface, it’s na act from the order of unproductiveness.  It’s not about something building at first. Botanical and plastic investigations come closer to typical childhood games which keep adult perversions: like a Love me, Love me not. Or perhaps we could think about narratives impregnated with myths, like the undoing after Penelope’s weaving.

 

Paula Costa doesn’t push the ending of things because the gesture dares not to allow the end to come. It questions life and, in the act of practicing the meticulous scale of the plant surface, builds a botanical notebook with green and ripe pages. The time of things follows its course in another life, that doesn’t come to face lives with an ending - maybe it offers a future among acrylic boxes, like a photographer who lends the promise of eternity in a flash.

 

Like a lifeguard who sneaks by the beachshore, staring at the horizon, perhaps we can talk about a rescue. To the wilted and pale ornamental flowers and plants is reserved the bottom of trash cans and lack of appreciation. The couple in love no longer appeals to them as a sign of their love, and neither are they the means of giving welcome, good wishes, happy years or congratulations of any nature.

Ulisses Carrilho

first days of spring, 2017